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terça-feira, setembro 30, 2003

PERFUMES

Abro o armário. À procura de uma peça de roupa esquecida. Daquelas que nunca mais vimos, mas que nos lembramos dela.
Reparo num velho casaquinho teu. De malha. Preto.

Surgiu-me então, vinda nem sei de onde, uma raiva enorme. Como se tivesse encontrado algo ímpio em solo sagrado. Pensava que não restava aqui nada teu, que tinha tirado todos os teus objectos de casa, assim como tu te tiraste.

Mas não. Ali estava mais um sinal teu, mais uma lembrança de algo que já me parecia esquecido. Até parecia que estava ali de propósito, só para se meter comigo. Como tu fizeste tantas vezes.

Decido-me a arrancar mais essa (última?) lembrança e retiro-a do cabide. E vem aquele perfume. Foda-se!
Aquele perfume que tantas vezes me entrou pelas narinas e que reconhecia no meio de tantos outros. Imediatamente.

Esse perfume traz-me, em cascata, uma série de lembranças que me mastigam novamente o cérebro. Os beijos, as tuas costas (que saudades das tuas costas), o teu sorriso, o teu abraço, os teus cabelos, o teu corpo, de perfil, à janela.

Resisto, como sempre.

E, mais uma vez, antes que se feche o cerco, atiro o casaco para dentro do caixote das tuas coisas.
Quase sem olhar, fecho o armário.
- Merda! – Atiro eu, enquanto me dirijo à casa de banho, para lavar o teu perfume, as tuas costas e os teus beijos.

Era tão bom que as nódoas da alma saissem com lavagem. Assim. Sem mais nem menos.
Só lavar e passar, para a podermos vestir novamente, no dia a seguir.

segunda-feira, setembro 29, 2003

ENCONTRO

Manhã cedo. Levanto-me. Sinto-me enérgico, bem disposto.
Vou para o duche.
Estou ansioso.
Vou ter contigo. E o melhor de tudo, olho-me ao espelho e sinto-me bonito.
Visto-me. Como qualquer coisa. Aceno um adeus e saio.

Estou impaciente enquanto desço o elevador. Já queria estar aí.
Tiro o carro da garagem e saio para a rua. Com pressa. Direito a ti.
Enquanto conduzo, ausento-me, relembrando os beijos, os carinhos, as promessas. E sinto-me feliz.
Não ouço, não vejo, não sinto.Tenho-te. E isso é o que mais me importa.

Depois de uma luta contra o trânsito, chego finalmente. Estaciono.
Toco na tua porta, que se abre.
A tua mãe atende e diz-me que saiste.
- Entra. Esperas aqui por ela.
- Onde é que ela foi? – Pergunto.
- Comprar não sei o quê.
Agradeço. E viro costas. Desço pelas escadas, é mais rápido. Quase que corro.

Rua. Desço as escadinhas que dão para o centro. Desço a rua que dá para o jardim.

E lá vens tu. O teu sorriso abre-se, num reconhecimento. Mesmo estando longe.
É então que descanso. Que me sinto aliviado. A ansiedade acaba. Nos teus braços. Tu segura em mim. Quero-te muito. Não me deixes.

É por ti que me levanto.

sábado, setembro 27, 2003

ADORO VER-TE COZINHAR...

Olho para as tuas mãos e vejo a delicadeza com tratas tudo. Sempre foste assim. De empatia extrema.
Tu, que ao pôres a mesa, juntavas garfo e faca do mesmo lado.
- Para não se sentirem sózinhos. – Dizias.
Transmitias o medo que tinhas de ficar só. Nunca o escondeste. Nunca me escondeste nada.

Sempre que podemos, fazemos o jantar juntos. Tu a cozinhar e eu a ajudar. Bebemos uns copos de vinho e conversamos. A calma reina, acompanhada da minha felicidade.
Gosto dos fins de tarde em que nos fazes umas panquecas, com açúcar amarelo. Um mimo.

Fim.

Às vezes, olho para a cozinha. Arrumada. Sem as tuas mãos. Sem os copos de vinho. Sem a tua voz.
Fazes-me falta.
Os garfos e as facas têm saudades tuas.
O açúcar amarelo acorda-me a chorar e pergunta por ti.

Todos temos saudades de um tempo que já não volta.
Todos temos saudades de ti.

sexta-feira, setembro 26, 2003

HOJE…

Hoje estou parco em palavras, por isso expresso-me através de uma letra. E a música, meus amigos, é linda!


There Goes The Fear

Out of here
We're out of here
Out of heartache
Along with fear
There goes the fear again
There goes the fear

And cars speed fast
Out of here
And life goes past
Again so near
There goes the fear again
There goes the fear

Close your brown eyes
And lay down next to me
Close your eyes, lay down
Cause there goes the fear
Let it go

You turn around and life's passed you by
You look to ones you love
to ask them why?
You look to those you love to justify
You turned around and life's passed you by
Passed you by, again

And late last night
Makes up her mind
Another fight
Left behind
There goes the fear again, let it go
There goes the fear

Close your brown eyes
And lay down next to me
Close your eyes, lay down
Cause there goes the fear
Let it go

You turn around and life's passed you by
You look to ones you love
to ask them why?
You look to those you love to justify, why?
You turned around and life's passed you by

Think of me when you're coming down
But don't look back when leaving town
Think of me when he's calling out
But don't look back when leaving town
Think of me when you close your eyes

Artist: Doves
CD: The Last Broadcast buy!
Release Date: June 4, 2002
Record Label: CAPITOL
Official Site: http://www.doves.net



quinta-feira, setembro 25, 2003

OLÁ PITA!

Estou aqui só para uma coisa. Pedir-te desculpa.

Na tentativa de ser aquilo que não sou, de querer manter a imagem a que te habituei, não aceitei as tuas críticas, que me feriram e me fizeram dizer aquelas coisas.

Ataquei-te com força demais. Cego. De raiva.

Tu apenas te defendeste. Eu compreendo. A sério. O culpado aqui, sou só eu.
Eu não queria dizer-te aquilo que disse. Não te queria fazer infeliz, não te queria magoar.
Mas na lógica do estúpido que sempre fui, estas coisas têm de ser ditas de arremesso, como uma arma, que fere e destrói. E não pensei nas consequências. Fui injusto.

Pita, retiro tudo o que disse. Tudo. Nenhuma palavra minha desse dia merece ser lembrada.

Tu sabes que te admiro pela tua força, por teres a coragem de pedir ajuda, de saberes enfrentar as vicissitudes da vida com esse teu (e tão teu) sorriso. Digo-te todos os dias.

Gosto de sair contigo e rirmos de tudo.

Gosto de ti. Amo-te. Sabes que sempre que precisares, estarei ao teu lado. Sempre.

Eu sei que o destino às vezes não nos deixa escolher. E que achas que não tiveste sorte naquilo que te saiu. Mas perdoa, só mais esta vez. Eu prometo que me deixo de palermices.
Só não me deixes passar mais uma noite de angústia e arrependimento como a que passei ontem. De consciência pesada e sonhos maus. Sonhos de perda.

Eu sei que mais tarde ou mais cedo me perdoas. Mas preferia que fosse já. Não quero perder um segundo da tua amizade e do teu amor.

Desculpa. Sim?


terça-feira, setembro 23, 2003

GOSTO DE VOS LER

Comecei nesta coisa dos blogs tarde e a más horas, como de costume.
Iniciei-me apenas na leitura. Não tinha coragem de me expor, nem sabia como se fazia uma coisa destas.

Hoje, neste pequeno mundo que criámos, relembro os tempos de início do IRC, onde no canal #portugal, éramos uns dez pacóvios, amigos e cúmplices, que se tratavam pelo nome, como aqui. Diariamente.

Só espero que isto não se torne a selva em que aquilo se tornou. Onde conceitos como verdade e honestidade deixaram de existir.

Tenho blogs de referência, que não são apenas estes que aqui estão linkados, e são muitos. Não os vou enumerar porque poderia estar a ser injusto com alguém que pudesse esquecer.

Ganhei este vício de vos ler. Chego ao ponto de sonhar com isto. Está mal. Uma pessoa não se pode prender a este pequeno mundo. E faz um esforço para não estar a acompanhar constantemente tudo o que é escrito nestes espacinhos individuais que arranjámos.

É uma espécie de urgência, de ansiedade. Todos os dias tenho vontade de ler aquilo que os outros têm para dizer. Acompanho debates e discussões políticas, assuntos judiciários, educativos, egocêntricos e até fodengas.

O que vos quero mesmo dizer, é que se me tornaram um vício e que, como digo neste título, gosto de vos ler.

Obrigado por existirem...

P.S. Temos de erigir uma estátua ao gajo que inventou isto!

segunda-feira, setembro 22, 2003

ANTOLOGIA:

CARTAS RASGADAS



Olá,

Estou a roer-me por não saber estimar-te, por não saber cuidar-te, no fundo, não saber ter-te.E tenho vergonha.

Sou como aqueles putos mimados. Que querem muito um cão e depois se apercebe que ter um cão dá muito trabalho. Não é só dar festinhas. É dar de comer, é dar banho, é brincar, é passear...
...E às vezes por medo e outras por preguiça, não cumpro. E fico a roer-me.

E roí-me quando foste a Cuba, e eu, por medo, não ter estado onde devia. Ao teu lado, à tua altura. À altura da única mulher que me fez e faz feliz. Desculpa...
O que me rói é que nem sequer devíamos ter discutido o facto de eu não estar à tua espera. Eu tinha de estar era lá e VIVER contigo tudo aquilo que viste, que sentiste, que te fez rir, tudo. Amar-te é estar contigo em TUDO! E não sabes o medo que eu tenho de não estar à altura...

E afinal aconteceu...abriste os olhos e surgiu a dúvida de que eu não estou à tua altura. Então, tem esta certeza, não estou. Porque és um ser que vive, que gosta de sentir que fez tudo para conseguir ver e desfrutar o máximo possível do mundo, deste mesmo mundo que me atrofia, me atordoa, me rebaixa.

Meu pássaro lindo. Sou como um Galo, todo vaidoso, com as suas cores garridas, e o seu ar seguro. Mas só dentro do galinheiro, com os seus pares. Cá fora, foge a correr, a cacarejar e a borrar-se todo.
O Galo que te inveja quando te vê a passar a voar por cima dele. Muito alto...a ver o mundo...e ele ( eu ) a pensar: “ Quero chegar ali...e estar com ela”...estar contigo.

Não te minto quando te digo que não tenho dúvidas. Nunca as tive. És tu quem eu quero. És a minha metade. Mas também não te menti quando te disse que não sabia namorar. Que me tinhas de ensinar, de me ajudar.

E uma vez mais te peço...ajuda-me...

Nem sei mais o que te diga. Apetece-me dizer-te tudo, e não dizer nada.
Só roer-me, aqui, baixinho.





PODE SER QUE UM DIA...

Tenho um sonho recorrente. Nunca lhe vi a cara, nunca ouvi o seu nome. Os sítios sonhados variam. Conhecidos ou não. Mas o que me espanta, é mesmo a sensação de felicidade que sinto quando estou com esse alguém. Nunca consegui tê-la com mais ninguém.

É uma sensação de ciclo completo. É o encaixe das peças de um puzzle. É sentir-me completo. É, a meu ver, a minha alma gémea.

Há quem não acredite neste termo: alma gémea. Eu, às vezes, quase que desisto de acreditar. Mas também já cheguei a acabar namoros por causa dela. Numa noite sonhava com ela e no dia seguinte, ia a correr acabar a relação que tinha, porque ela podia aparecer de repente e eu não estar disponível. E isso, não me iria perdoar.

Continuo à espera dela. Já não com tanta certeza. Há uns tempos que não a sonho. E sinto-lhe a falta. Dela e daquela sensação de felicidade total, de paixão tão bruta, que chega a doer. De não querer mais nada, por me sentir a transbordar.

Não sei quem ela é. Mas fico à espera.
Como disse uma amiga minha:
- Ela há-de aparecer. Quando menos esperares.
Mais vale dez segundos de felicidade, que uma vida inteira ao lado de quem não se ama.

Eu não tenho sorte nenhuma. Sei isso. Mas é como o Totoloto. Pode ser que um dia...

sexta-feira, setembro 19, 2003

RESSACAS

Acordo.
Fiz mal.
São onze horas da manhã e não dormi o suficiente. Estou de ressaca. Tenho a boca a saber a papel de música, estou mal disposto e dói-me a cabeça.
- Nunca mais bebo. – Digo para comigo e já sei que a promessa é vã.
Tento voltar a dormir. Para ver se dormindo mais um bocadinho a coisa passa.
Não dá. A dor de cabeça lateja e não me deixa adormecer.

Nem sei a que horas me deitei.
Viro-me na cama. Sinto-me miserável. Envergonhado, tapo a cara com a almofada.

Desde que te foste embora, todas as manhãs têm sido assim.
E todas as noites, uma fuga para a frente. Viver intensamente cada minutinho da vida. Tentar divertir-me. Tentar rir.

Bares, discotecas, jantares, sempre sítios onde haja uma garrafa. Para tentar afogar esta mágoa que arde cá dentro. Bem lá no fundo.
Tem sido um constante anestesiar da dor, não consigo enfrentá-la. Adormeço-a durante breves horas, mas de manhã, ao acordar, sinto-me envergonhado da ruína em que me tornei.

É então que a consciência me ataca.
Nunca pensei que me fizesses tanta falta. Que me doesse tanto. Já nada me preocupa. Vejo passar os dias sem que algo belisque o alheamento a que me votei.
Tem de ser assim. Senão, não consigo segurar as lágrimas e a dor que sinto no peito. Aquele aperto que me faz suspirar. Só há um sítio onde deixo cair a máscara. E preciso de lá ir. Já.

Levanto-me. Vou para a casa de banho e abro o duche. Dispo-me e entro.

É aí, com a água a correr, sem que ninguém me ouça, que me liberto.
É aí, que me sento e choro. Não é só por ti. É Por tudo.

quinta-feira, setembro 18, 2003

PARABÉNS!!

A Bomba Inteligente faz anos hoje.

Aqui ficam os parabéns do Encalhado.

Que cumpra muitos mais e nós todos a ver...

ANJO DA GUARDA

Lembro-me de ter feito isto tantas vezes: Deixar-te em casa e vir pela rua abaixo. Distraído, de sorriso aberto, a saborear ainda os teus beijos e as tuas palavras ao meu ouvido:
- Amo-te! Até amanhã.

Até ao dia em que depois de deixar-te, atravesso a rua e ouço, de repente, um guinchar de pneus e uma explosão de luz. Não senti dor. Não senti nada.

Para mim, não há pior sensação que aquela em que não podemos fazer nada. Em que não há solução. Tenho medo de coisas definitivas, onde não haja volta atrás. Não sei porquê. É qualquer coisa de instintivo.
Eu sempre tive medo que te acontecesse alguma coisa e eu não estivesse lá para te acudir.
Detestava não estar onde devia quando te acontecia alguma coisa má. Gosto que estejas sempre ao pé de mim, para o que quer que seja.

Sempre.

Parece que esse desejo me foi garantido. Agora, estou sempre ao teu lado, a proteger-te, a olhar por ti. Para onde quer que vás. Onde quer que estejas.

Nunca mais te ouvi a segredares-me daquela maneira tão tua:
- Amo-te! Até amanhã.
Mas em compensação, ouço, todas as noites, as tuas orações para que te proteja.

Minha querida, podes ficar descansada. Comigo aqui, não te acontece nada.

quarta-feira, setembro 17, 2003

DESPERTARES

Gosto de acordar ao teu lado. De sentir o teu calor. De ver a tua silhueta desenhada nos lençóis.
Gosto do teu abraço ao despertares. Da forma como te aninhas no meu peito.
Fazes-me sentir importante, com um gesto tão simples.

Gosto de passar as manhãs de Domingo deitado ao teu lado, a ver-te dormir.
Quando acordas e dás com o teu olhar no meu, ficas envergonhada, como se tivesses sido apanhada em falta. Fazes uma careta e dás-me um beijo.
- Bom dia! – E riste, quase como se pedisses desculpa.

Quando não podíamos dormir juntos, ficava caladinho à espera de ouvir o ruído do teu despertar e do som que fazias ao vires a correr meter-te na minha cama.
- Estás sempre tão quentinho! – Dizias e enroscavaste em mim.
Eu abraçava-te e pedia que o tempo parasse ali.

Perdi a conta às manhãs em que tu adormecida, não sentias os meu beijos, por toda a tua cara. Não me importava com isso, porque o amor é para ser dado e não retribuído. Sempre.

Passou já tanto tempo. Mas ainda hoje, acordo e sinto o calor do teu corpo a meu lado. Estendo a mão, com a certeza desesperada de que já lá não estás.
Que és o que sempre foste.
Um sonho.

terça-feira, setembro 16, 2003

CHRISTIANE F.

Apaixonei-me por ela.
Assim que a li.
No filme, que vi anos mais tarde, ela também era bonita. Mas não tanto como na realidade.
Apaixonei-me na criancice dos meus 13 anos. Na doidice dos meus 16. E dura. Até hoje. Sempre que a leio.

Eu sei. Prostituiu-se pela droga. Não é exemplo para ninguém. Era novinha e estragou-se toda, tudo isso é certo, mas a sua história não deixa de ser apaixonante.

Chamem-lhe patetice. Chamem-lhe o que quiserem. Mas é uma coisa muito minha, que partilho com quem tiver o azar de me ler.

É daquelas paixões que nunca nos largam. Que ficam sempre cá dentro. Que marcam. Não sei se é pena. Não sei o que é. Só sei que merece este elogio que lhe faço. Apetece-me. Por tudo o que me deu. Por todas aquelas ganas parvas que uma pessoa tem, quando não consegue alcançar aquilo que almeja.

Se bem que não percebas uma sílaba de Português, aqui fica um elogio a ti, Christiane.

segunda-feira, setembro 15, 2003

ILUSÕES?

A propósito do último post, tenho uma história real que quero partilhar convosco.

Vinha da Universidade, depois de um daqueles dias em que não dá para baldar aula nenhuma. Estava cansado e fazia frio. Saio na primeira paragem, mesmo ali pertinho da minha casa. Vou ao café que há em frente para comprar o jornal e bebo uma bica, que serve para aquecer. Atravesso a rua, e meto a chave à porta do prédio. Deixo que ela se feche com estrondo, porque não me apetece amortecê-la.
Chamo o elevador. Estava no quinto andar. O meu. Chega e abro a porta. Imediatamente sinto nas narinas um cheiro conhecido dentro do elevador e penso:
- Olha! Está cá a minha avó. Cheira-me a ela. Deve estar também o tio António José e provavelmente, a tia Amália.
Carrego no 5 e olho-me no espelho, a ver se estou composto. Naqueles rápidos 20 segundos que demorou a subir, preparo-me para os cumprimentar.
Chego finalmente. Abro a porta e sai silêncio.
Vejo a minha mãe a vir pelo corredor, de olhos vermelhos e inchados.
Pergunto-lhe:
- A avó não está cá?
A minha mãe faz um ar assaranpantado e responde simplesmente:
- A avó morreu. Estavamos à tua espera para irmos para a terra.
- Mas eu senti-lhe o cheiro!...

Como é que é possível isto acontecer? Como é que lhe senti o cheiro, ali, naquele momento, sem saber o que se passava? Como se ela estivesse estado naquele mesmo elevador minutos antes? Não sei. Não consigo perceber. Será que veio dizer-me adeus?

Espero que sim. Sinceramente. E que venha mais umas quantas vezes, ver se estamos todos bem, se não precisamos de uma forcinha. Há vezes que bem falta faz.

Descansa em Paz Idalina. E manda saudades à malta toda que está aí contigo.

sábado, setembro 13, 2003

EXCERTOS

Publico aqui um excerto de um dos mais belos contos que li. Deixarei a autora anónima. Tenho a certeza que um dia a veremos na contracapa de algum livro.
Não, isto nunca foi publicado. Infelizmente. É extenso, eu sei, mas vale mesmo a pena perdermos este tempinho. Espero que gostem.



“Começo por ti, avó, porque é para junto de ti que caminho.
Morreste tinha eu cinco anos. A última vez que te vi estavas mais tranquila e profunda do que nunca. Cheiravas a flores porque havia muitas flores. Umas pisadas no chão, outras ao teu lado, outras distribuídas por pequenas jarrinhas de pedra, muito bem organizadas ao longo daquele jardim. Fiquei orgulhosa porque as tuas eram as mais bonitas, as mais coloridas, as mais viçosas.
Estavas deitada numa caixa do teu tamanho, colocada sobre o chão e todos choravam por cima de nós. Choravam, soluçavam, lamentavam-se, tocavam-te, até que começaram a afundar-te num buraco cavado na terra. Chamei-te e tu não me falaste, quis-te avisar mas tu não me ouvias. “Ela não te responde, Bárbara, está morta”. Mas o que era isso de morrer? Desconhecia o significado da palavra, mas pela tua não-resposta pressentia que alguma barreira se tinha entreposto entre nós duas.
“A Avótelvina vai para o Céu, ali em cima, que é um sítio muito bonito. Vai pró pé de Deus, não te apoquentes”. “E quando é que volta?”. O “nunca mais” que se seguiu enrolou-se-me na garganta a ponto de me sufocar. Fiquei vermelha de revolta, inchada com o ar que sustive no peito e depois molhada pelas lágrimas que se rebelaram cara abaixo. Quem era esse deus que ia levar-te de mim?!
Ainda corri por entre as pernas dos outros que te viam afundar e não te acudiam. Queria deitar-me contigo, achava que se te abraçasse com muita, muita força, terias pena de mim e acordavas. Mas tu nem abriste os olhos! Tu que me tinhas feito todas as vontades....
Depois, a minha mãe agarrou-me por um braço, içando-me para cima, enquanto uns senhores te empurravam para baixo. Íamos em sentido contrário. Foi aí que te fixei e me estiquei ao colo dela para além do meu equilíbrio, acompanhando-te até ao fundo da escuridão. Depois perdi-te.
Não me preocupava o teu destino, mas a tua ausência na minha vida. Foi das últimas vezes que me senti verdadeiramente egoísta: lá me acalmava que me dissessem que estavas num mundo melhor, que estavas a descansar porque a tua vida tinha sido longa, que toda a gente tem de morrer um dia ou que ias zelar por mim lá de cima! Eras minha, fazias-me feliz e ninguém nem nada neste mundo tinha o direito de arrancar de ao pé de mim a minha bisavó, a minha Avovina, muito menos o deus bom que todos apregoavam.
São poucas as memórias que retive dos espaços de tempo que se seguiram à tua viagem. Nem sei mesmo se as memórias que tenho são anteriores ou posteriores à tua passagem pela minha vida; se foi o desgosto que a desfragmentou, ou se levaste contigo uma parte da minha consciência quando me morreste. Para continuarmos a dormir juntas do outro lado do mundo, como fazíamos sempre, deste lado da vida.
Penso em ti todos os dias, tenho-te na carteira e na alma. Sinto que criámos um espaço maravilhoso – não sei em que dimensão – onde as nossas almas se tocam, constantemente. Sei-o porque sinto necessidade de te falar. E é durante esta ansiedade de te recordar que procuro os teus objectos, que reconstituo o teu toque, que vagueio pelos recantos da casa onde me lembro de ti.
Às vezes peço que me falem sobre a minha Avóvina e entristeço porque a memória me atraiçoa e mantém afastado da minha consciência tudo o que vivi contigo. Era tão pequena quando tudo acabou.
Durante algum tempo tive raiva das velhotas que encontrava com mais de 82 anos, a idade em que para ti recomeçou outra vida e que entre nós se abriu uma outra dimensão.
Quando vou a casa da avó, raramente deixo de beijar a tua fotografia e, inexplicavelmente, sei que estás ali. Depois limpo a marca da minha boca no vidro, com vergonha que alguém perceba. Normalmente choro-te, mas evito que me vejam.
Sempre quis ser forte, crescer à tua imagem, e tu sabia-lo melhor do que ninguém. Continuaste a ser uma das minhas referências, sinónimo de mulher corajosa, justa, companheira, à frente do tempo, mas o nosso afastamento tornou-me fraca.
Também procuro os teus óculos de ver. Vinte anos passados sobre a vossa despedida, as lentes e os aros que seguraste sobre a cara ainda guardam o teu cheiro. Também eles têm saudades tuas, caso contrário já se teriam rendido ao cheiro da naftalina que invadiu as tuas gavetas.
Quando me deixaste eu era tão pequenina, tão frágil, apesar da rebeldia, da determinação e da resposta pronta na ponta da língua. Queria poder abraçar-te, agora, agora que os meus braços são maiores, mais longos, agora que te posso envolver melhor, agora que te posso reter dentro do receptáculo formado pelos meus braços e pelo meu peito, o sítio mais próximo da minha alma... naquele gesto que não deixa dúvidas.
E só posso imaginar este abraço, não posso mais do que fantasiar o teu cheiro, não consigo mais do que recordar o teu toque... A ausência do teu corpo faz-me tanta falta!
Mas é a ideia do “nunca mais” que continua a sufocar-me. Tanto, tanto, tanto! Tanto quanto a incerteza do nosso encontro, quando for para mim a cova aberta no chão.”



Quem me dera saber escrever assim...

sexta-feira, setembro 12, 2003

HOJE VI-TE

Hoje vi-te.

Eu não queria, juro. Foi sem querer.
Tive de ir aquela gaveta buscar uns papéis quaisquer. Abri-a com um cuidado extremo. Devagarinho. Para não te acordar. Sabia que era ali que estavas.

Desculpa ter-te fechada ali. Mas não podia deixar-te na mesa de cabeceira. A D. Odete, a senhora que me limpa a casa, por solidariedade para comigo, esbofeteava-te o pó. Tens de a perdoar, queria defender o menino dela.
Também não podia permitir que todas as noites não me deixasses dormir. Eu sei que não fazias barulho, que estavas só a olhar. Só que era esse mesmo silêncio e esses olhos que me impediam de adormecer.

Os papéis que precisava estavam no fundo da gaveta. E agora? Já estavas tão quietinha há tanto tempo, que não soube como é que havia de fazer. Para que é que te deixei tão ao de cima? Tenho medo que acordes novamente. Dentro de mim.

Agarrei, o maior número de papéis que pude, numa tentativa de não te reconhecer o toque. Asneira. Senti, imediatamente, a moldura onde estavas. Estremeci. Num assomo de raiva, tirei a mão cheia de papéis onde estavas para fora. Sem olhar. Encontro rapidamente a porcaria dos papéis que precisava.

Tenho de arrumar tudo outra vez. E, para isso, tenho de olhar.
Bom, seja o que o destino quiser.
Antes de me virar, lembrei-me daquele anúncio dos paraquedistas:
- Junta-te a nós. Salta connosco.
Saltei.

E lá estavas tu. A espreitar. De esguelha. Eu já sabia.
Não resisto. Pego em ti.
Estás linda, como de costume. Com aquele sorriso que derretia toda a gente. Beijo-te. A cara todinha. E reparo que estou a sorrir.

Ouço alguém pensar: Já chega! Deixo cair o sorriso e volto para a realidade.

Demoradamente, aconchego-te novamente naquela gaveta. Lá bem no fundo. E fecho-te. Lentamente.
Dorme bem. Descansa. Cuida de ti. E não te esqueças:
Tenho de voltar a acordar-te para guardar os papéis que tirei.

quinta-feira, setembro 11, 2003

LUARES

Acabei de escrever um post. Estou satisfeito. Com aquela sensação de prazer cumprido.
Fui até à varanda e vi Marte, pequenino, longe.
Mesmo ao lado, está a Lua, grande e cheia. Com um brilho tão intenso, que ilumina o Tejo e me ilumina a mim.

Olhei para as minhas mãos, brancas, de tanta luz. Lembrei-me de ti.
E das saudades que tenho de beijar-te.

A Natureza parece que transmite aquilo que sentimos. A vida é um palco e neste momento, fui escolhido para ser Marte. Pequenino. Lá longe. Sózinho. Tenho um brilhozinho tão ténue, que ao pé da Lua ( ao pé de ti ), mal me vejo.

Se és Lua, eu quero ser Sol. Se és noite, eu quero ser dia. Gostava, sinceramente, de ter sido eu a completar-te.

Queria tanto ter sido perfeito, ser aquilo que querias. O Sol que te trazia calor. Mas não. Fui apenas Marte. Pequenino. Sem brilho nenhum.

Minha querida Lua, se não podes ser minha, então brilha. Grande e cheia. E com o teu brilho, mostra a todos o amor que sentiste por mim. Um amor lindo, tão puro, tão generoso. Não. Espera. A palavra certa é: Genuíno.
Eu não fico com ciúmes se mostrares. Bom, quer dizer, talvez fique só um bocadinho.

Há-de haver alguém que será o teu Sol. Só espero que esse parvalhão saiba dar valor ao tesouro que tem nas mãos.

quarta-feira, setembro 10, 2003

O BEIJO

Na minha infância, vivi em Lisboa, perto do Areeiro. Num modesto rés de chão. Com uma assoalhada. Mas que tinha um quintal enorme. Esse era o meu mundo. Desde que saía da escola até anoitecer, era ali que sonhava. Onde brinquei aos “cowboys”, embora preferisse ser dos índios. Onde me transformava num pirata aventureiro, que cruzava os mares. Ali, fui Sandokan e Zorro. Foi o sítio onde aprendi a subir às árvores, por causa das nêsperas, tão docinhas.

Tu vivias com a tua avó, minha vizinha da frente. Partilhávamos o mesmo quintal, o mesmo mundo, as mesmas fantasias e as mesmas fatias de pão. Com Planta.

Pouco mais velha que eu, tinhas o cabelo liso, alourado, um bocadinho acima dos ombros. Uns olhos com um azul intenso. De mar.
Eras sardenta ( Como é que ainda me lembro de ti? ).
Por invejar as tuas sardas, agarrei um dia na caneta castanha, de feltro, que estava no meu estojo da escola e pintalguei a cara toda.
Fiquei lindo. E o que tu riste.
Claro que assim que me viram, apanhei umas valentes palmadas.
- Com o chinelo?
- Sim, o de tacão de madeira.
E fui mandado para o banho.
Mas valeu bem a pena. Por uns momentos também fui sardento. Como tu.

Nos teus anos, ofereceram-te uma tenda. Grande. Colorida. Com uns desenhos que faziam com que se parecesse com uma casa. Tinha janelas transparentes com canteiros de flores e tudo. Quiseste fazer-me uma surpresa. Com a tua avó a ajudar-te, montaste aqueles ferrinhos todos. Construiste a tua ( nossa ) casa.

Aos gritos, chamaste-me. Querias mostrar a tua prenda. Saí.
Espantado, entrei na tenda. Era enorme. A tua avó, sempre preocupada, tinha metido uns cobertores, para ficar mais confortável.
Tu juntaste-te a mim. Lá dentro, olhámos pelas janelas, para o nosso quintal.

Criámos logo uma história. Eu era o marido, o pai. Tu a minha esposa, a mãe. Saí para ir trabalhar. Corri o quintal todo. Fiz um buraco, a fingir que trabalhava. Tu estavas em casa, a fazer o jantar.
- Já é noite! – Gritaste, dentro da tenda. Farta de estar sozinha.
Já sabia o que se ia passar. Não sei se por instinto, se por causa daquela novela – A Gabriela – em que as pessoas se beijavam.
Entrei em “casa”. Tu, impaciente, à minha espera:
- Então? Não me beijas?
Beijei-te. Na boca. Demorei-me. Soube-me bem. Soube-me mesmo muito bem.
Estava feliz. Estava casado. Com quem gostava.
Jantámos nos teus pratinhos de brincar.
E fomos dormir.

terça-feira, setembro 09, 2003

SUÉCIA

Olá...

Sou eu. Outra vez. O chato de sempre.
Já voltaste. Fico contente. Muito.
Espero que te tenhas divertido. Estava frio lá?

Já sei que tiveste saudades de falar comigo. Que me trouxeste uma lembrança. Que não te esqueceste de mim. Sabe tão bem.

Assim que chegaste, começaste bem. Com um excelente:
- Então gajo?
Gostei. Dá um ar familiar à coisa. É giro. Cai sempre bem.

Gosto de estar contigo. De falarmos durante horas de tudo e de nada. Em frente a um pires de caracóis. Com umas quantas cervejas pretas. Sem dar pelo tempo a passar.
Gosto que me consideres teu amiguinho, embora só nos tenhamos visto umas 4 vezes. Gosto de te ver montar na CBR. Gosto que gostes de máquinas.
Gosto quando não nos despedimos, porque estás sempre cheia de pressa. Com um milhão de coisas para fazer.
Gosto dessa actividade toda, dessa energia, dessa tua coragem.

Gostei do sms a dizer: Liga-me.

Amiguinha: Isto é só para, no caso de leres, te dizer que tive saudades tuas. Que me fizeste falta.
Não te ofereço flores. Não é coisa que encaixe comigo. Isso, cá para mim, é demasiado fácil.

O que mais me agrada é que já te posso voltar a dizer: Até amanhã! Beijos grandes

segunda-feira, setembro 08, 2003

DANÇAS

Chove. Estou no carro. Sózinho. À tua porta. Na rádio passa aquela música que tanto gostas e que cantas quando estás a tomar banho.
- Quero-te tanto! - Escreveste um dia na minha agenda. Só li quando a abri, no emprego. Fiquei com um sorriso onde cabia o Mundo. Só tu é que consegues pôr-me assim, tão feliz, numa porcaria de uma segunda-feira de manhã.
Cantávamos as músicas todas que passavam na rádio em altos berros, a caminho de qualquer lado. Para onde quer que fôssemos. As pessoas nos carros ao lado riam-se, divertidas. Só tu é que me conseguias pôr a fazer essas lindas figuras.

Contigo é que comecei a dançar em casamentos e em festas. Sou desajeitado, tenho uns pés que parecem umas traineiras. Mas, mesmo assim, e depois de levares uma boa dose de pisadelas, insistias sempre:
- Vens dançar comigo? - Piscavas-me o olho e sorrias.
Dançavas tão bem, que eu próprio começava a aprender. Como é que poderia dizer-te que não? Mesmo que tivesse dois pés esquerdos e os joelhos ao contrário, dançaria sempre contigo.
Lembro-me de tudo isto e dou por mim a rir, feito o parvo que sou. Estou feliz por te ter. Por seres minha.
Olho para o relógio. São seis e meia de uma manhã fria. Vais levantar-te daqui a nada para ires para o aeroporto. Olho pela janela. A luz do teu quarto acende-se.

Não atendeste o telefone ontem à noite. Não quis insistir, mas estranhei. Tinhas-me dito que ficavas em casa, que tinhas de arranjar tudo para a tal viagem de negócios, que tinhas de dormir.
- Saio cedinho, lindo. Não vale a pena ires ao aeroporto. Não gosto de despedidas. Eu ligo assim que lá chegar.
Tens de me desculpar, estava preocupado. Como não me atendeste, vim só ver se estavas bem.

A porta do teu prédio abre-se. Sais. Atrás de ti sai o Artur. Aquele palerma que te queixaste um dia que dançava pior que eu.
Baixo-me. Envergonhado. Nem sei porquê. Entram no teu carro. Ele ao volante. Arrancam.

Levanto-me. Fico feito parvo a olhar. Não acredito nos meus olhos. Perdi-te.
Penso uns momentos e tomo uma decisão.
Respiro ( ou suspiro? ) bem fundo. Ligo o carro.
Hoje é Sábado. Estou com sorte. Vou ver nas igrejas se há casamentos. Hei-de arranjar outro alguém que me ensine a dançar.

domingo, setembro 07, 2003

SERRA MÃE

Existem certos blogs que são uma referência.
Conheço e leio o Serra Mãe, desde que me iniciei no mundo dos blogs. Foi mesmo dos primeiros que visitei. Era já uma instituição.

Nunca tive coragem de dar os parabéns ao Al, como ele me fez. De lhe dizer que gosto de o ler. Achava inconveniente estar a maçá-lo. Afinal de contas, não passo de um encalhado que tem a mania que sabe contar histórias.

Ele não. No meio de centenas de blogs e milhares de posts, sentou-se e leu. Os meus. Todos.
É algo que deixa qualquer encalhado com manias, no mínimo, lisonjeado.

Só lhe posso agradecer com este mísero post e gritar bem alto: OBRIGADO!

sábado, setembro 06, 2003

FINS DE SEMANA

Tu andavas estranha há algum tempo. Não sabia o que era, mas estavas diferente. Discutiste com o miúdo nosso vizinho. Tu, que adoras crianças. Eu pensei que era do curso que andavas a tirar, que te consumia o dia inteiro.
Depois, numa viagem até à terra, só falavas do curso e de que havia um rapaz que te enervava. Passámos a viagem toda só a falar dele. Estranhei. Rangi os dentes, mas calei-me.

Sexta-Feira

Fomos jantar ao outro lado da ponte. Em casa de amigos. Aí estranhei outra vez. Não abriste a boca toda a noite. Tu que és tão faladora, tão comunicativa, tão expressiva, apenas jantaste. E ali ficaste, sentada, silenciosa, ausente.
E eu, burro, não adivinhava. Não era capaz. Não concebia. Não via.
Nessa noite não quiseste fazer amor. Compreendi. Estavas cansada. Estavas distante. Viraste-te para o outro lado e adormeceste.

Sábado

Não faço ideia...não me recordo...desculpa...andava preocupado...Contigo!

Domingo

Só me lembro do fim de tarde...tu deitada na minha, na nossa cama...sempre distante, sempre ausente, silenciosa.
Perguntei-te o que tinhas.
- Nada! - Respondeste.
Mentiste.
Tinha de te fazer falar, a falta que me fazias e a angústia em que me tinhas, fez-me adivinhar o que sentias.
Respirei fundo.
Juntei forças e disse:
- Não te esqueças que antes de te ser qualquer coisa sou teu amigo. Podes contar-me o que te aflige, o que tens, o que sentes.
Não te mentia. Sabes isso. Lutei para que me dissesses o que tinhas, que querias. Argumentei que não podias esconder-me nada. Éramos um só. Um todo.
- Tenho dúvidas acerca de nós! – Disseste, finalmente.
E sai-te um suspiro de alívio. Era isso, que entranhado bem fundo, te consumia.
Caiu-me tudo ao chão. Era o desabar do mundo. A sensação de que alguém te puxa o tapete e que vais cair no vazio. Merda!
Mordi os lábios para não chorar. Merda! Um nó tão grande, que dói, aperta-me a garganta.
- Dúvidas? Dúvidas? Nunca tive dúvida nenhuma de que queria estar contigo! De que te amo! – Respondi, magoado.
Ainda o estou, sabes? Ainda não consigo ver-te, nem em fotos. Dói-me. Mas, vá lá, começa a ser apenas uma moinha.
Dêmos um tempo. Para decidires. Não sei porquê. Eu já me tinha decidido. Ia seguir em frente. Sem ti. Sózinho.

A minha maior dor, foi quando tu, num assomo de verdade, me fizeste ver que não te doeu a nossa separação, que estavas feliz e aliviada, por estares livre de mim. De nós.
Disseste:
- Quero ser tua amiga. Para podermos sair e divertirmo-nos. Sabes que gosto de estar contigo! Cura-te depressa!
Respondi-te apenas:
- Desculpa. Mas não posso. O meu amor não é doença.

sexta-feira, setembro 05, 2003

MANHÃS

Levantei-me. Manhã bem cedo. O Sol ainda estava baixinho, alanrajado, com umas névoas parvas, que ele parecia não ter força para dissolver.
Tomei o café olhando pela janela, a ver a luta entre o Sol e as nuvens.
Eu, que tenho o costume de puxar pelos mais fraquinhos, desta vez puxei pelo Sol.

Perdi.

TENHO UMA AMIGA!

Chama-se Valentina...

Têm de ir visitá-la

PAIXÕES

Deito-me.
Puxo de um cigarro. Num exercício de memória e de saudade, tento lembrar-me de todas as minhas paixões passadas. E elas vêm. Uma a uma, passam. Todas deixam algo. Um cheiro, um som, um gesto.
Saboreio essas sensações uma a uma.

Soergo-me.
Acabei de reparar que as pessoas com quem me cruzei, que amei, que beijei, com quem me ri, que por um momento me fizeram feliz, apenas me deixam pequenas marcas, mas não sentimentos. Perdi-os. Esqueci-os.
Toda aquela angústia da espera, da ansiedade do primeiro beijo, do desespero das discussões, da felicidade das juras, do ciúme dos olhares de outros, o prazer de fazer amor.
Desapareceu.
Não ficou nada...

Em todas elas pensei, no nevoeiro da paixão, ter encontrado a alma gémea.
Errado!
Não sei como, todo aquele emaranhado de sentimentos que vivi, transformaram-se apenas em bocados de sensações dispersas.

E isso, cá para mim, é uma merda!

ATÍPICO

Fui colocado nas vidas que ele segue!
É uma honra que não mereço, mas que aplaudo de pé!
Isto faz bem ao ego!

Atípico, correndo o risco de cansar, mais uma vez...muito obrigado!

Um Abraço!

AVISO À NAVEGAÇÃO

Depois de inúmeras queixas cá vai:

PARA VISUALIZAR TODOS OS TEXTOS DO BLOG DEVEM MAXIMIZAR A JANELA DO MESMO!!

O meu mais sincero obrigado!

quinta-feira, setembro 04, 2003

1983

Era Verão.
Estava a jogar à  bola no parque de areia no centro do nosso bairro com o resto da malta. Deviam ser para aí­ umas oito da noite. Já escurecia.
Tu surgiste. Linda.
Vinhas com o teu irmão numa das rarí­ssimas vezes em que vieste brincar para a rua. Eu compreendia, eras uma princesa e as princesas não vêm brincar com a malta.
Só te via na escola. Eras da sala ao lado da minha. Nem nisso tinha sorte. Adiante.
Surgiste. Eras a miúda mais bonita da rua. Da rua? Da vila! De Lisboa! De Portugal! Do Mundo!
Bela. Inacessível. Celestial.
Olhaste para mim. Arrepiei-me. Não era possí­vel. Não merecia tamanha honra.
Parei de jogar. Simulei uma lesão. Tinha de ir ter contigo o mais rápido possível para que mais ninguém se metesse contigo. Eras minha.
Não corri.
Voei.
Fui ter com o teu irmão, para ter um pé para falar contigo.
Começaste a falar, eu apenas balbuciei. Que querias? Foi a primeira vez e estava nervoso. E o que eu esperei por isso!
Tu perguntaste se te podia empurrar o baloiço.
- Claro! - Gaguejei eu, num misto de vergonha e de orgulho. De vergonha, porque toda a rapaziada da rua começou logo a chiar de gozo e sabemos como as crianças às vezes podem ser cruéis. De orgulho, porque ali estava eu a empurrar a minha princesa, num suave balanço, com cuidado, para não a magoar.
Podia ter ficado ali dias.
Fez-se noite. Entretanto, sentei-me ao teu lado. Conversámos acerca da escola, da lua, das estrelas. Eu, para te mostrar uma que brilhava mais, apontei e tu avisaste-me:
- Não apontes para as estrelas que te nascem cravos nas mãos! - Na minha ilusão pensava que te tinhas preocupado comigo. Que se calhar até podias gostar de mim. Nem que fosse só um bocadinho.
A tua mãe chamou-te da janela. Olhaste para mim uma última vez e começaste a correr com o teu irmão. Esperava que parasses na esquina e me acenasses um adeus. Não o fizeste. As princesas não acenam a plebeus. Não interessava. Estava feliz. Foi uma das melhores noites da minha vida.
E tu, hoje, nem te lembras.

UNS E OUTROS

Este Blog é um mimo, vão lê-lo!

Sofia: Obrigado!

quarta-feira, setembro 03, 2003

OLHARES

Gosto do teu olhar.
Gosto quando olhamos fixamente um para o outro e nos convidamos.
Gosto quando ao passar por ti, me esforço por te ignorar e sinto o calor desses olhos tão lindos.
De chegar ao café onde costumas estar e procurar o teu olhar no meio da multidão. É a primeira coisa que faço, juro! E de os descobrir no meio de tantos e reconhecê-los sem qualquer esforço.
Adoro quando falamos, sem uma palavra, só com a expressão dos olhos e os sorrisos.


É bom saber que alguém nos quer, nem que seja apenas com o olhar.

O ENCALHADO VOLTOU DE FÉRIAS!!!

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