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sexta-feira, março 26, 2004

SOMETIMES...

I feel like nothing...

PEQUENAS ATENÇÕES

Está à entrada do Metro. Sentado no chão, com as mãos sobre os joelhos. Olhava as pessoas que passam, ausentes, metidas consigo próprias, envolvidas nos seus problemas, distantes. Um corropio de corpos que passavam, indistintos.

De vez em quando, firma os olhos num ou noutro passante. Um olhar triste. Como que a pedir atenção.
está incrédulo. Ninguém sequer o olha. O vê. Passam e desviam o olhar. Têm mais que se preocupar.
Nem está mal vestido. Não tem mau aspecto. Se não estivesse na posição em que está, poderia ser um dos que passam e não o vêem.

Não querem sequer saber. Não lhes interessa. Não é com eles.
Ele, na mão, tem um pequeno cartaz que diz apenas:

"PRECISO DE UM ABRAÇO, POR FAVOR!"

quarta-feira, março 24, 2004

PRÉMIOS

O Encalhado foi distinguido nos Prémios Malucos para Blogues

"Encalhado: prémio do mais apaixonado"

"Prémios gentilmente dados por Cristina, Duende, Jacky, Marília, Sónia.

Obrigado!

terça-feira, março 23, 2004

IVAN, O TERRÍVEL

Ivan, o terrível era a alcunha de um rapazinho. Uma espécie de herói que tínhamos na minha rua. Mais novo que todos nós, pequeno, franzino, sempre de calções.
Era um dos mais valentes. O primeiro a entrar à noite nos prédios em construção com guarda para "gamar" canudos, e quase sempre o último a sair.
Saíamos todos a correr, em gargalhada, devido à adrenalina de nos termos safado sem "baixas".
Corajoso, o Ivan nunca virava a cara a uma boa luta contra as ruas vizinhas.
Houve uma vez em que se chegou ao pé de um dos "inimigos" mais corpulentos e mais velhos e disse-lhe:
- Anda lá, grandalhão, mete-te com um gajo do teu tamanho! - O outro riu-se.
Confiante, mandou-lhe um empurrão. Em segundos, estava a correr para casa, a chorar, com a cabeça partida.
Era assim o Ivan. Terrível.

Uma vez, estávamos nós a brincar aos índios, chegou um matulão de outra rua. Bem mais velho que nós, já deveria ter uns 16 anos. O Ivan tinha batido no irmão dele, que tinha sido apanhado a roubar roupa dos estendais da nossa rua.
- Tu é que és o Ivan? - Perguntou o matulão.
- Sou! Porquê?
- Bateste no meu irmão, porquê?
- Porque é um ladrão! Apanhámo-lo a roubar nos estendais.
- É um quê?
- Um ladrão!...
E ouviu-se o primeiro estalo, que nos gelou. A todos. O Ivan, esfregando a cara marcada disse:
- Não doeu! E o teu irmão continua a ser um ladrão!
Outro estalo. Este mais sonoro, mais raivoso.
- Um ladrão! - Repetiu Ivan.
Outra bofetada e mais outra.

É então que vejo um dos miúdos mais pequenos, levantar a cana que fazia de lança, e vergastá-la nas costas do matulão.
- Se bates nele, bates em mim, cabrão!
O matulão virou-se para o puto pequeno e todos nós apertámos as canas com mais força e fizemos o ar mais ameaçador possível.
- Bates nele, bates em nós, cabrão! - Gritámos todos.
O matulão, olhou em volta e reparou que estava em vias de levar uma enchente de vergastadas e fugiu a correr. Ainda esboçámos uma perseguição, mas desistimos. Estávamos mais interessados em celebrar mais uma vitória.

Tínhamos salvo o nosso herói.
E estávamos orgulhosos.
Éramos da rua do Ivan, O Terrível.

quinta-feira, março 18, 2004

LINDO!

B.G:

Achei lindo este teu post. Mesmo!

Só vos mostro um bocadinho...o resto façam-me o favor de ir visitá-la e lê-lo todo. E depois entendam o porquê.

"Porque, acima de tudo, APETECE-ME DIZER-TE que tens toda a sorte do mundo porque os meus olhos ainda brilham quando olho para os teus!!!"

Foram? Agora digam lá que não valeu a pena?!
É LINDO!

quarta-feira, março 17, 2004

VÍCIOS

Conheço-o desde os meus 12 anos. Era um jogador fabuloso. Mesmo! Fazia maravilhas com uma bola. Era impressionante. Fintas estonteantes, remates fabulosos. A bola para ele era um vício, o seu vício.
E tinha um sorriso fabuloso nos lábios. Enquanto jogava. Sempre.

Encontrei-o há pouco tempo. Magro. Gasto. De olhos baços. Desdentado. Estava metido até ao tutano, noutro vício. Um vício destrutivo, mortal.
Falei-lhe, a medo. Perguntei-lhe como estava. Como tem a puta da vida que lhe calhou ou que escolheu.

Disse-me que tinha largado. Que estava na Metadona. Mas que já tinha de a largar e que não sabia se se aguentava, sem esse veneno:
- É a parte mais difícil, agora. Vocês não fazem ideia da força que isto tem... - Disse, separando-me dele, com este Vocês.

Sinceramente, não faço ideia da força que aquilo tem. Não faço.
Sempre me agarrei bem forte aos meus objectivos e olhei de frente para o meu futuro. Para uma vida que quero para mim.

Mas não é disto que vos quero falar.
Quero falar-vos antes, da forma como os olhos cansados deste meu amigo brilharam quando eu me lembrei que tinha uma bola no carro, lha mostrei e perguntei:
- Puto, ainda te lembras?!

E ficámos naquele fim de tarde, a mostrar malabarices de bola um ao outro.
Eu, contente por estar com uns dos gajos que me ensinou a jogar à bola.
Ele, não sei como se sentia, mas afastou a franja de sempre, meteu aquele sorriso fabuloso nos lábios e ensinou-me mais um bocadinho de tudo aquilo que sabe.

terça-feira, março 16, 2004

TORANJA

Porque há música portuguesa que ainda excita e ainda me faz sentir de uma maneira como há que tempos não sentia. É simplesmente linda esta música.


Não falei contigo
com medo que os montes e vales que me achas
caíssem a teus pés...
Acredito e entendo
que a estabilidade lógica
de quem não quer explodir
faça bem ao escudo que és...

Saudade é o ar
que vou sugando e aceitando
como fruto de Verão
nos jardins do teu beijo...
Mas sinto que sabes que sentes também
que num dia maior serás trapézio sem rede
a pairar sobre o mundo
e tudo o que vejo...

É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
Que a minha bola de cristal é feita de papel
Nela te pinto nua
numa chama minha e tua.

Desconfio que ainda não reparaste
que o teu destino foi inventado
por gira-discos estragados
aos quais te vais moldando...
E todo o teu planeamento estratégico
de sincronização do coração
são leis como paredes e tetos
cujos vidros vais pisando...

Anseio o dia em que acordares
por cima de todos os teus números
raízes quadradas de somas subtraídas
sempre com a mesma solução...
Podias deixar de fazer da vida
um ciclo vicioso
harmonioso do teu gesto mimado
e à palma da tua mão...

É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
e a minha bola de cristal é feita de papel
Nela te pinto nua
Numa chama minha e tua.

Desculpa se te fiz fogo e noite
sem pedir autorização por escrito
ao sindicato dos Deuses...
mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei
como refúgio dos meus sentidos
pedaço de silêncios perdidos
que voltei a encontrar em ti...

É que hoje acordei e lembrei-me
Que sou mago feiticeiro...

...nela te pinto nua
Numa chama minha e tua.

Ainda magoas alguém
O tiro passou-me ao lado
Ainda magoas alguém
Se não te deste a ninguém
magoaste alguém
A mim... passou-me ao lado.


E não fui eu que te escolhi...minha querida.

segunda-feira, março 15, 2004

INOCÊNCIA OU ESTUPIDEZ?

Visto e ouvido na TV:

A X tem 15 anos. Usa, desde há dois, MDMA, Ecstasy e LSD, todos os fins de semana. Para se divertir, diz. Para se ausentar dançando, afirma.
Mesmo que não saiba que MDMA é o mesmo que Ecstasy.

Usa e nem sabe o que usa. Mete no corpo venenos, sem saber sequer, o que eles são, que efeitos têm. Sem a mínima consciência do que está tomar. Nada. Apenas lhe interessa o prazer que isso lhe traz.

Fuma Haxixe ou Erva, todos os dias. Para se abstrair, para relaxar, para andar nas calmas.
Já experimentou Heroína e Cocaína. Mas acha que são drogas ultrapassadas, mais para os drogados. Os "agarrados".

A jornalista pergunta:
- Achas-te uma toxicodependente?
A miúda, que não passa de uma miúda, sente-se insultada e nota-se na voz e na maneira como responde:
- Eu?! Não!

sexta-feira, março 12, 2004

BOM FIM DE SEMANA!

Façam por ser felizes!

MINERVA

I get all...numb
When she sings it's over
Such a strange numb
And it brings my knees to the earth

And God bless you all
For the song you saved us...

You're the same...numb
When you sing it's over
Such a strange numb
It could bring back peace to the earth

So God bless you all
For the song you saved us...
For the hearts you break, everytime you moan...

I get all...numb
We're the same numb
And it brings our knees to the earth

So God bless you all
For the song you saved us...
For the hearts you break, everytime you moan
And God bless you all on the earth...

Deftones

quinta-feira, março 11, 2004

O MEU TIO MÁRIO

O meu padrinho. Era um homem grande, de ombros largos, peludo. Lembro-me em miúdo de pensar que ele era um gigante, numa ocasião em que na praia, íamos os primos todos atrás dele na borda de água e experimentei meter um pé na sua pegada. Era enorme.

O meu tio Mário, que em Janeiro já tinha as prendas todas compradas para o Natal do ano seguinte. Que adorava ver os embrulhos coloridos escondidos no sotão. Porque adorava dar e ver a nossa cara quando recebíamos as suas prendas. Que nos manteve sempre na ilusão do Menino Jesus.

O meu tio Mário, que me levava pela mão, aos alfarrabistas de vão de escada em Moscavide e que me mostrou a maneira de escolher um bom livro. Que me ensinou como é bom o cheiro de livros antigos, de capas amarelas e páginas ásperas.
Tinha a maior colecção de livros que eu alguma vez tinha visto.

Um Homem que tomou conta da minha mãe e de mais uns quantos irmãos dela quando estes estavam em início de vida. Que tinha sempre uma palavra amiga. Que dava abraços de urso a toda a gente. Que se divertia a jogar computador connosco. Que adorava os jantares de clã aos sábados à noite.

A última vez que o vi bem, foi num sábado de manhã em que eu, ele e o meu pai, fomos ver a minha irmã num sarau de ginástica. Na semana seguinte enervou-se no trabalho com uma injustiça qualquer, e a tensão alta fez o resto. Um AVC fortíssimo apanhou-lhe um dos lados do corpo e deixou-o numa cama de hospital. Prognóstico muito reservado.

Quando fui vê-lo, ele estava consciente, enquanto a minha tia lhe dava o almoço. Olhou para mim e pareceu-me que os seus olhos sorriram. Apetecia-me cobri-lo de beijos e abraços e dizer-lhe o quanto gostava dele. Arrependo-me tanto por não o ter feito. Muito. Mesmo.
Em vez disso, fechei os olhos com toda a força e vim dar o lugar de visita à filha. Não aguentei vê-lo assim. Débil, frágil.
Era o meu tio Mário. Era o meu padrinho. O meu gigante.

Apercebo-me agora, que ainda o estou a chorar...

terça-feira, março 09, 2004

REGOZIJO

Excelentíssimas Senhoras e Senhores, tenho o prazer de anunciar que no dia 4 de Março, este blog de um gajo que tem a mania que sabe escrever, atingiu a duração média por visita de 7:30 minutos.

Ora isso é, para mim, bem mais importante que o número de visitas ou page views.
Porquê? Porque significa que as pessoas que vêm visitar este tugúrio, ficam a ler as baboseiras que aqui edito.
Dá-me a ideia de que não é apenas uma visitinha rápida de médico, mas sim, uma visita que se prolonga e que, desculpem-me a imodéstia, espero que seja prazenteira.

E não...não fui eu que fiquei no blog a fazer tempo...

Um obrigado especial, mais uma vez, a todos os que aqui vêm fazer uma visitinha diária, semanal ou mensal.
E, aos que cá vêm a primeira vez, que sejam muito bem vindos!

sexta-feira, março 05, 2004

HOJE...

...a porta dos sonhos fechou-se 4 horas mais cedo para mim.

Vi o dia a nascer.
Vi o Sol a lavar a cara no Tejo.
Já não o fazia há imenso tempo.

Logo pela manhã, já me sentia cansado.
Só espero que este dia passe depressa.

quarta-feira, março 03, 2004

O MEDO

Esta é a história de um amigo que trabalha comigo, que vive uma situação estranha. Pelo menos para mim. Apaixonou-se por uma miúda que passa, de carro, todos os dias pelo caminho que fazemos para ir ao café.
Começou tudo com uma brincadeira. Ele viu-a, agradou-lhe e disse-lhe adeus.
Ela respondeu. Sorrindo.

Desde esse dia, que repetem este ritual. Sorriem um para o outro e dizem adeus.
Nunca se falaram. Nunca se viram para além destes segundos em que se cumprimentam.
Mas ele, entusiasmado, vai a correr para estar à hora certa, no local por onde ela passa.

Se ela se atrasa, ele abranda os seus passos, até que ela passe.
Se por algum acaso ela não passa, todo o seu entusiasmo se transforma em tristeza.

Perguntei-lhe uma vez porque não lhe fazia sinal para ela parar.
Ele respondeu-me: “ Prefiro este entusiasmo da ilusão, do que cair na realidade de um não.”

O medo. Sempre o medo da realidade. Medo de ouvir um não.
Mas é compreensível. Não o temos todos?

terça-feira, março 02, 2004

VAZIOS

Olha para a televisão, sem prestar atenção. Tentou, aumentando o som, evadir-se da sensação de vazio que a rodeia. Afastar a solidão que sente.

Não tem ninguém. Os poucos amigos têm a vida deles e a ela também não lhe apetece impor a sua presença. Sente-se um fardo. Eles não têm de aguentar aquele vazio que ela é.

O Jorge não telefona há 2 semanas e 3 dias, ela também não sentiu a falta dele nessas 2 semanas e 3 dias. O sacana também só vai ter com ela em último recurso, quando todas as outras portas se fecham. A dela está sempre aberta. Sempre. Para que ele possa esvaziar-se no vazio dela.

O trabalho, chato, corre normal. Tem 22 anos no departamento. Já não tem ninguém do tempo dela ao seu lado. Mais um vazio. Apenas miúdos parvos, cheios de soberba, que saíram agora da universidade e a tratam como uma inferior, mesmo que ainda cheirem a leite. O Jorge é um deles.

Acende um cigarro. Para tentar com o ardor do fumo, preencher o vazio que sente no peito. Não tem ninguém com quem falar. O Jorge, não telefona há 2 semanas e 3 dias. Também não lhe sente a falta. Nenhuma.

Aspira uma passa grande e lenta. Descobre-se do robe e olha-se. Já não tem o corpo firme e quente de outros tempos, onde o Jorge gostava de pernoitar, quase todas as noites. Nesse tempo, conseguia adormecer sem medo de tanto vazio. Adormecia calma, embalada pelo cheiro dele. Ainda bem que não lhe sente a falta.

Apaga a televisão e o cigarro. Levanta-se, fintando todo aquele silêncio, vai em direcção ao quarto, para se meter dentro de um frasco de comprimidos. E dormir.

segunda-feira, março 01, 2004

AS MINHAS PÁGINAS

Uma página vazia. Branca. Virgem. Alva.

Olho-a uma e outra vez.
Desejoso de a encher de palavras minhas. Palavras escritas com aquela letrinha que tento fazer de bonita, mas que nunca me agrada. Tento enchê-la de sentimentos, emoções, vontades.

Lembro-me da minha professora da primária.
Das vezes que me bateu com a régua e das vezes que me fez sentir inveja dos colegas que tinham uma letra perfeitinha. Redondinha. Com uns A que pareciam uma obra de arte.
Eu não. Gatafunhei. Sempre.

Evolui e de gatafunhos, passei a qualquer coisa próxima do ilegível.

E gosto de encher páginas e páginas desses gatafunhos, que são só meus.
Que mais ninguém entende, mais ninguém tem acesso. A não ser eu. É o meu pequeno espaço, o meu ninho.
São os meus segredos.

Aqui, nestas páginas escrevo para mim. E para mais ninguém.
E, quando acabo, gosto de olhar para a página. Uma e outra vez.
Gatafunhada. Sentida. Minha.

Vossa.

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