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sexta-feira, abril 16, 2004

TALISMÃS

- Tens sorte, menino. Tens uma estrela desenhada na mão. Nada de mal te pode acontecer.

Disse-me isto certa vez a minha avó paterna. A minha Felícia.
Tudo porque a minha mãe foi com o meu tio Luís ao Porto. Fazer nem sei o quê. E deixou-me com ela. Com a minha avó. Pessoa estranha no meu dia a dia.

Lembro-me de chorar lágrimas amargas, em que a minha imaginação fértil, me dizia que a minha mãe não voltaria nunca. Que me tinha abandonado.
Medos infantis de alguém que se habituou a tê-la sempre ao pé. Sempre ao lado.

Lembro-me de tentar dormir e não conseguir. Lembro-me das carícias da minha avó para tentar afastar-me o medo.
Até que me disse, olhando para as minhas mãos:
- Não tenhas medo, menino. As tuas mãos têm segredos e um deles é que não deves ter medo. Tens uma estrela desenhada nelas. Não tenhas medo. Estás protegido. Por esta estrela. Ninguém te pode fazer mal.

Lembro-me de me acalmar com essa estória. De me achar mais sossegado. Mais calmo. Seguro. Sem medo. Senti-me especial. Único.
Nesse momento, ouço um som de um carro a chegar. Uma porta a bater e uma voz sorridente, que conhecia, chamar:
- Pedro!

terça-feira, abril 13, 2004

DESPEDIDAS

Estava no meio do quintal. No muro que dividia a parte com calçada e a parte de terra. Olhou em volta, para todos os cantos. Todas as árvores. Para tudo. Vinha despedir-se.
Lentamente, moveu-se de árvore em árvore, beijou o limoeiro, cujas formigas que ali moravam lhe picaram sempre que ali subiu. Depois a nespereira, à qual adorava subir e tirava com muito jeitinho para não magoar, os frutos docinhos que ela dava, no verão. Depois o pessegueiro, árvore frondosa, que lhe dava sombra e parecia uma tenda onde brincava aos índios. Beijou-as todas, já a morrer de saudade.

Seguiu-se a casinha do gás. Onde brincava às casinhas, com a neta da vizinha. Beijou os 4 cantos. Sem nojo. Sem vergonha. Com saudade. Subiu as escadas de serviço. Chegou ao último andar que tinha um terraço enorme, onde se deleitou uma última vez com aquele bocadinho pequenino de Lisboa. Olhou para a antiga sede da CGD e lembrou-se da voz do ceguinho que costumava cantar ali com um realejo. Quando isso acontecia, subia as escadas a correr e ficava a olhar para ele, num misto de pena e de impotência, por não poder ir lá dar-lhe umas moedas.

Desceu. Beijou as paredes da parte com calçada, onde jogava à bola, onde aprendeu a andar de bicicleta, onde brincava com a primeira Nooky, a cadela que comia os cactos, lhe roubava a roupa do estendal e levava para a casota.

Olhou uma última vez. Limpou as lágrimas que doíam saudade, virou-se e disse adeus a um mundo de fantasia que até ali, tinha sido seu.

segunda-feira, abril 12, 2004

BREVE HISTÓRIA DE AMOR

Ela já vinha de férias para a aldeola, desde que era pequenina, mas raramente saia de perto do local onde morava. Quando fez 14, começou a sair com as amigas que trazia do sítio onde morava. Eram uma novidade para todos os miúdos da aldeia. Uma novidade boa. Miúdas que não eram as mesmas de sempre. Quando chegava, a malta toda esperava a sua chegada ao café para ver quem tinha vindo com ela.
Ele não. Só olhava para ela. Envergonhado, por não se achar bonito, fez-se apenas amigo, vendo-a ter aquelas paixonetas de férias. Nunca com ele porque era um amigo. Dos sérios. Trocavam olhares e sorrisos. Cumplicidades de amigos, achava ele.

Até que um dia, num dos bailes das festas, ela o convidou para a acompanhar até casa. Pertinho de onde morava, ela virou-se para ele e criou um daqueles silêncios que só as mulheres sabem fazer. Aproximou os lábios aos dele e beijaram-se. Assim, sem mais, nem menos. Depois, sentando-se, contaram um ao outro aquilo que mantiveram escondido tanto tempo. Ele estava ainda surpreso, mas contou-lhe tudo. Os ciúmes que tinha dela quando a via dançar com outros, das saudades que sentia dela quando lhe escutava a voz ao telefone, daquilo que sentia sempre que ela lhe invadia os pensamentos.

Ela contou-lhe que sempre se perguntou porque ele nunca tentou nada com ela, que ficara que tempos à espera que ele agisse, que gostava dele desde miúda. Que o achava lindo. Que adorava a sua voz. Que adorava olhá-lo, quando ele não estava a ver. Que se fartou de fazer-lhe olhinhos. Apaixonaram-se. Namoraram. Casaram há 2 anos.

Estive com eles este domingo.
Têm um puto lindo que adora adormecer ao meu colo. Ele, feliz, olha para ela e diz-me:
- Tive cá uma sorte! O destino tem destas coisas.
Ela ri-se, olhando para o sonho dos seus 12 anos. Que se tornou realidade.

quarta-feira, abril 07, 2004

UM DIA, NO FUTURO

Ontem, enquanto adormecia, lembrei-me que vou morrer.
Um dia no futuro, deixarei de existir. E não me apetece. Mesmo nada.
Não quero deixar de sentir. Não quero deixar de sorrir quando estou contente, de ficar triste quando as coisas correm menos bem, de cheirar as manhãs de Verão, de beijar, de abraçar, de ser.

Uma coisa estúpida essa de sabermos que um dia no futuro, deixaremos de existir, de fazer parte. Que seremos esquecidos, como tantos outros que já cá não estão.
Faz-me impressão. Arrelia-me.

Todos nós amamos, sentimos, preocupamo-nos, corremos, fazemos, criamos, escrevemos, desenhamos. Fazemos milhares de coisas que eventualmente e exceptuando alguns, serão esquecidas. Ignoradas. Perdidas. Isso deprime-me. Lixa-me.

Ontem enquanto adormecia, lembrei-me que não sou perene. Que vou ser esquecido. 20 anos depois, não serei mais que uma lembrança, enquanto a terra me engole, voltando ao lugar a que pertenço.
Mas sei que tive a sorte de viver, por breves (tão breves, foda-se!) momentos.

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